Profecia: predição ou condicionamento?

Não nego que, consoante as capacidades de comunicação telepática dos seres humanos, estes mesmos possam receber mensagens de seres estranhos (entidades, “deuses”, anjos, gnomos, etc.) acerca do futuro possível. No entanto, como saber se esse tal futuro está mesmo sendo predito ou se trata-se apenas de um “marco” a ser cumprido? Perguntariam-me: como assim, cumprido? Explico.

Conceito

A profecia é o dom inerente a uma pessoa que recebe mensagens sobre o futuro, especificamente, em forma de previsões ou alertas a respeito do que pode vir a acontecer a uma coletividade. Ao menos, é esse o conceito que eu estabeleço para minha reflexão. Médiuns, videntes, adivinhos e outros seres ditos “especiais” transcrevem ou repetem aquilo que ouvem, intuem ou veem em suas experiências místicas.

Problemática

O que me causa estranheza é a forma determinista com que muitas pessoas tratam essas “previsões”. Ou levam-nas a sério demais, tendo-as como verdades inelutáveis, ou desprezam-nas como sendo puras mistificações. Umas e outras são possíveis, de fato, mas deve-se levar em conta que, além da lei de causa e efeito, bastião da filosofia espírita moderna, há aspectos não “contabilizados”, como os universos paralelos (que geram outras causas e efeitos), que entram em contato com nosso universo, e os elementos caóticos, que são aqueles que dão sempre um tempero de imprevisibilidade a qualquer plano de realidade simulada. Ou seja, há margem de erro e imprevistos em qualquer previsão.

Pensemos na profecia como uma previsão de tempo dos noticiários. Podem nos dizer que, consoante as imagens dos satélites, é muito provável que vá chover em determinada hora do dia. Isso, claro, servirá muito bem aos vendendores de guarda-chuvas e aos estabelecimentos que servem taças de chocolate quente. Mas, será mesmo que toda essa previsão serve para nos prevenir a chegada da chuva ou para fazer-nos caminhar todos como que esperando, com , a chuva?

A Fé no cumprimento das profecias

A Fé moderna se baseia, totalmente, em alguma profecia. Alguma “autoridade” espiritual, aceita por todos como superior, foi ouvida dizer que virá um furacão em algum momento do futuro. Passamos, então, a viver e esperar esse evento grandioso. Preparamo-nos para isso, com devoção e temor. Não obstante, evidentemente, algumas visões tragam uma mensagem de genuína utilidade para os indivíduos e para a humanidade, podemos intuir que outras profecias não parecem vigentes para persuadir as pessoas a se retratarem de suas más inclinações, mas tão-somente usar essas más inclinações para fazer convergir a todos numa mesma direção.

Há uma grande diferença entre a prudência racional e o medo instintivo. A primeira baseia seu julgamento no discernimento das tendências e é inteiramente subjetiva; o segundo é uma reação virulenta, um reflexo das imagens que recebemos, projetado sobre a tela do Inconsciente Coletivo. A energia do Inconsciente Coletivo pode ser usada, por forças astrais (ou “semi-divinas” poderosas) e seus representantes (magos negros), na criação de uma egrégora. O poder desta, sintetizado e alimentado pelas emoções direcionadas das massas do gado, pode obter o “cumprimento da profecia”.

Obviamente, se um determinado potentado astral (anjo, deus, etc.) porta o conhecimento do passado e dos padrões que regeram o desenvolvimento da sub-espécie humana no planeta, ele poderá se aproveitar de nossa ignorância para nos direcionar da forma que desejar. O primeiro doutrinador é o objeto mesmo da doutrina, que transforma a si mesmo em dogma vivo e atuante no plano da realidade humana.

Eu, pessoalmente, tendo a pensar em famosas profecias (como as descritas no livro do Apocalipse) como um guia do que os crentes devem fazer cumprir. Por exemplo: se o Messias da profecia judaica não vier, é provável que os hierarcas judeus, que dependem dessa profecia para alimentar sua egrégora, façam com que ele apareça, de um jeito ou de outro. No caso do Apocalipse, seria como se as figuras de Cristo e Satanás trabalhassem juntas para que a profecia se cumprisse, e elas dependessem de que as pessoas respondam a certos estímulos para que alguns check points (metas, objetivos) sejam alcançados.

Filhos da Água e Filhos do Fogo

A Revelação (transmissão mística do conhecimento) deveria ser impessoal e neutra, sem manifestações espetaculares ou fenômenos aterradores. No entanto, o que vemos, na maioria das vezes, é apenas condicionamento. Um ensinamento moral que vem atrelado a uma ameaça, velada ou não, condiciona o indivíduo pelo medo, alijando a “besta” interna da integração e sublimação necessárias pela individualidade consciente.

É nisso que se distinguem o místico e o ocultista, o filho da água do filho do fogo. Aquele recebe o conhecimento de forma totalmente passiva e obediente, seja de que natureza for o tal Revelador. O outro absorve o conhecimento e manipula-o como uma pedra bruta, arrojando para o exterior o que sua mente apreende, de forma racional. O primeiro é devoto, o segundo é cético. O filho da água superestima a emoção, o filho do fogo precisa experienciar, testar e validar.

Ao passo que os místicos (“filhos da água“) veem na profecia um determinismo misterioso, cujas nuances eles se recusam a discutir, os ocultistas (“filhos do fogo“) sabem que na “revelação” há apenas o apontamento de uma forte tendência, cuja possibilidade de mudança é sempre presente. Outro exemplo: enquanto os místicos dizem que, “para Deus, nada é impossível”, o ocultista diz que “Deus, em si, é uma grande possibilidade”.

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8 Replies to “Profecia: predição ou condicionamento?”

  1. Júlio, nem li o texto! Só o título já me atraiu; pois penso da mesma forma. Creio mesmo que estamos em um experimento, um jogo – cujo objetivo é o condicionamento, o adestramento, … como mostram vários filmes do passado recente, precursores de livros dos pensadores (alienadores) dos séculos XIX e XX, como A Huxley, O Welles e outros mais sutis ou complexos de serem notados.

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      1. Julio, ótimo texto, participo dessa sua visão da “profecia” e do comportamento do ser humano, das massas robotizadas que parecem ter sido condicionadas a fazer cumprir sempre o lado negativo das profecias. Agora mais uma coisa me chamou atenção e me muito me agradou ver que você se afirma católico, e manifesta uma mente aberta, de livre pensador. Parabéns!

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      2. Boa noite, J. Roberto!

        Reafirmo: sim, pode-se, por alguma ciência privilegiada, antever-se a “conta” das causas e efeitos. Pode-se, inclusive, ter-se comunicação extrassensorial entre mentes. Porém, o que vejo é que as profecias são guias, como o mapa do Tesouro. A curiosidade faz com que, seja bom ou ruim o conteúdo do baú, o “povo” faça de tudo para abrir a Caixa de Pandora das profecias.

        Com relação a ser eu católico: boa parte dos grandes descobridores, filósofos e ocultistas da Idade Média, Moderna e Contemporânea eram católicos: vide Bacon, G. K. Chesterton, Eliphas Levi. Acho que o Ocidente deve muito à Igreja por ter preservado o saber clássico antigo, apesar dos crimes de muitos de seus hierarcas.

        Acredito que a libertação do pensamento em nada tem a ver com auto-alienação ou radicalização, que nos faz redundar no extremismo anterior, só que em lado oposto. A justa medida é o meio, e o Tesouro, não importa a sua postura, estará sempre onde estiver o seu Coração (Mt 6,21).

        Um abraço e obrigado pela visita! 🙂

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  2. Júlio, não há efeito sem causa. Sempre fomos manipulados pelo campo invisível primário, incluindo a elite manipuladora, que é manipulada a manipular.
    Desde os primórdios até os dias atuais, tudo vem seguindo essa linha cabalística, onde o princípio básico é o que deu título à sua recente e brilhante postagem: “DIVIDIR PARA CONQUISTAR”.
    Seu texto e meu comentário já são uma prova evidente de que estamos começando a nos libertar, por já estarmos enxergando o jogo que sempre nos manteve como perdedores, sem qualquer controle de nossas vidas de um modo geral, em todos os aspectos.
    Estamos nascendo! Finalmente estamos começando a deixar de ser uns meros dominados pela matéria, para assumir nossa identidade superior de RACIONAL.
    A máfia do encanto acabou – cada qual, agora, será colocado no seu devido lugar.
    O que pertence à matéria, terá que se contentar com o primarismo dos seres materiais.
    E o que é racional (fora do âmbito primário material, visível e invisível), é agraciado com a sabedoria verdadeira universal e sua libertação dessa escravidão de matéria.
    É vitória do raciocínio sobre o pensamento, por o raciocínio não dividir, e sim, sempre somar!
    Elevado abraço!
    Louvada seja a LUZ DA DIVINA PROVIDÊNCIA NA TERRA!

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    1. Nágea, boa noite!
      Destaco esta sua fala:
      “Sempre fomos manipulados pelo campo invisível primário, incluindo a elite manipuladora, que é manipulada a manipular.”
      Logo, o hierofante verdadeiro falará por nós, não por nossos “velhos pais”.

      Um fraterno abraço do “mano”,
      Júlio. 🙂

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