Hipoglicemia e a experiência do jejum químico

Por Júlio César Coelho.

(ebraelshaddai@gmail.com)

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Como livre pensador e diabético que sou, sempre procurei ficar atento ao corpo que uso nesta dimensão, bem como às interações entre ele e minha mente durante eventos relevantes, tais como a hipoglicemia. Ao contrário do que muitos pensam, não é necessário utilizar-se de psicotrópicos ou outros entorpecentes para observarmos estados alternativos de Consciência. Basta que mudemos nossos hábitos diários, dos alimentares aos de nossa rotina de atividades.

Como todos sabem, todas as atividades executadas a partir de nossos corpos físicos necessitam de energia para que se realizem. A geração desta proporciona calor e alguns substratos químicos. A falta de energia e de substâncias essenciais causa desnutrição e hipotermia por desidratação (pois a água conduz calor, além de nutrientes).

A substância de conversão de energia mais utilizada e mais rapidamente absorvida pelo corpo é conhecida como glicose, na forma de açúcares e carboidratos. Outras substâncias também são processadas para a obtenção de energia, tais como gorduras, porém menos benéficas ao corpo para esse fim (pois poluem o sangue com corpos cetônicos ácidos ao serem degradadas). Portanto, a glicose é o item nobre que serve como alimento a estes corpos franzinos em que nos encontramos no atual estágio da evolução. Para se ter uma ideia da dependência química de nossos corpos em relação à glicose, o cérebro precisa consumir cerca de 80% da glicose processada dentro das células para que funcione bem, em estado de vigília plena.

Também não é estranho aos leitores a palavra diabetes, que é uma doença autoimune pela qual as chamadas ilhotas de Langerhans, células do pâncreas responsáveis pela síntese e secreção da insulina, são destruídas pelo sistema imunológico do próprio paciente. Sem contar com a produção de insulina, hormônio que tem como função enviar sinais para as células se deixarem permear pela glicose (e glicogênio, armazenado no fígado), o corpo passa fome diante do próprio alimento. Seria como vedar a boca e o nariz de um tabagista diante do cigarro aceso.

A glicose é a droga do cérebro. Sim, é vital ao cérebro, mas este pode viciar-se. Como em qualquer vício, a mente tem se padrão vibratório quando em desequilíbrio alimentar. Quanto mais “doce” o sangue, mais a mente “viaja na maionese”. É bem sabido, também, os efeitos dos chocolates e doces em geral na estimulação nervosa, da libido e da concentração. Sim, a glicose estimula e regula a atividade cerebral. No entanto, o consumo excessivo de carboidratos (ou seja, substâncias que se transformarão em glicose em seguida) satura o cérebro e provoca ansiedade quando demanda níveis sempre mais altos da “droga”.

O jejum, representado no contexto do diabético pela hipoglicemia (taxa sanguínea de glicose abaixo do normal), realmente ajuda a ver as coisas de uma forma menos saturada e mais equilibrada. Descortina-se, muitas vezes, ao hipoglicêmico, pensamentos e fatos há muito esquecidos ou, em alguns casos, sequer cogitados. Apesar de ser uma condição clínica que requer máxima atenção (por risco de convulsões, ferimentos graves e coma), a experiência psicológica que se obtém deste estado é deveras interessante.

>> Saiba mais: Notas sobre a Hipoglicemia.

O silêncio, o relaxamento e o jejum, combinados com certos exercícios corporais, são adotados pela maioria das religiões do Mundo, há milênios. Muitas ideias incomuns, intuições, inspirações e as chamadas profecias são obtidas a partir do uso de psicotrópicos, mas também pela privação do que é grosseiro e consumido pelo corpo. A condição de exceção química pode nos levar a uma alteração de nossa Consciência e, consequentemente, do julgamento que fazemos das coisas que nos cercam e do modo como vemos nossas Vidas.

Devemos saber que nossas mentes não refletem nossa essência, mas tão-somente uma personalidade em execução programadas, experienciando essa dimensão como veículos dentro de outros veículos (nossos corpos físicos). Ou seja, se nossas mentes podem influenciar a manifestação de nossos corpos e regular suas atividades, é razoável pensar que esses mesmos corpos (com seus fluídos) também influenciam nossos estados mentais. Quem nunca sentiu como se o Tempo passasse mais devagar quando em estado febril, como em um simples resfriado?

>> Se você gostou deste conteúdo, CURTA NOSSA PÁGINA ~~>> Central Matrix.

Há anos, venho notando que minha visão e disposição em relação a determinados assuntos variam de forma desconcertante de acordo com o nível de glicemia de dados momentos. Ponderando insistentemente sobre algum assunto complexo, da hiperglicemia (estado de alta taxa glicêmica) à hipoglicemia, minhas visões e conclusões podem mudar radicalmente, sem muitas operações lógicas entre estas mudanças. Sim, por homeostase, a mente adapta-se ao meio químico em que o cérebro se encontra, dada a sua saturação ou rarefação, com pouca ou demasiada quantidade de glicose disponível.

O excesso de glicose condiciona nossas mentes a pensarem na plenitude e imaginarmos cenários complexos e irreais. A privação da glicose também pode nos levar a delírios ou alucinações, porém com menos elementos a dificultarem nossa visão. Se, durante a hipoglicemia, o indivíduo se mantiver calmo, a tendência é que seu corpo se adapte a esse estado extremo e a fazer vir à tona ideias mais claras, mais cordatas e com menos chances de ocorrerem nos julgamentos. Não raras serão as vezes que mudaremos de ideia e disposição após uma reflexão calma, sobre um assunto, durante um evento hipoglicêmico.

A hipoglicemia é um estado de desespero químico para o corpo, inteiramente dependente da glicose para funcionar. Consumirmos menos glicose e mais produtos naturais, exercitarmo-nos fisicamente e mentalmente, bebermos água pura e corrente e permanecermos mais tempo em silêncio pode mudar, inteiramente, nossa Vida para melhor, combatendo a intoxicação por glicose, prevenindo os males adivindos da ansiedade e clarificando nossos pensamentos.

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ATENÇÃO!

A hipoglicemia é uma condição de baixa glicemia sanguínea. Seja provocada ou involuntária, a hipoglicemia pode deixar sequelas cerebrais graves, acidentes, alteração da visão, coma e, eventualmente, a morte.

Não procure voluntariamente entrar em evento hipoglicêmico! Este conselho é dado por este diabético que vos fala.

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